Mulheres trans, negras e do campo, são as duplamente marginalizadas na política.
A falta de representatividade feminina na política de Mato Grosso do Sul ficou nacionalmente conhecida após as eleições de 2018, quando mesmo tendo 52% dos eleitores mulheres, não fomos capazes de eleger uma só deputada para Assembleia Legislativa do Estado, sendo o único legislativo do Brasil com essa formatação: apenas homens.
Não que a legislatura de 2014 tenha sido um sonho de equidade, mas ao menos tivemos mulheres eleitas, duas no caso: a deputada Grazielle Machado, que havia herdado o eleitorado pai, o então candidato a vice-governador e atual deputado Londres Machado (PR) e a deputada Mara Caseiro, ex-prefeita de Mundo Novo.
Nesta terça-feira (3), durante o “calcinhaço”, ato convocado em repúdio a deputados estaduais que, na tribuna da Assembleia Legislativa, se levantaram contra mulheres que teriam tirado as calcinhas em frente a igreja evangélica na Rua 14 de Julho, Centro de Campo Grande, durante o Carnaval, o Lado B encontrou alguns exemplos de mulheres que buscam, além de chamar atenção para necessidade da representatividade feminina, alertar com próprio testemunho de vida a importância de saber qual o perfil de mulher está sendo eleita.
Kenci Palácios, mulher trans, acredita que num estado como Mato Grosso do Sul, se já é difícil para a mulher, para as transexuais tudo se potencializa. “Vivemos numa sociedade que nos desumaniza, não nos olha como gente, e como foi dito aqui hoje, vivemos em um estado que valoriza mais um animal de quatro patas do que nós, humanos”, se referindo à cultura da criação de bois.
Outro universo da mulher pouco visto pelas políticas públicas, ainda mais sem representatividade, é o da mulher no campo. Diná Freitas, agricultora que mora em assentamento, afirma que a mulher do campo é o principal pilar da agricultura familiar no país.
“Nós nos desdobramos no campo, somos mães, cuidamos de casa e ainda trabalhamos, mas ficamos lá escondidas desamparadas à própria sorte”.
Diná sabe bem como é difícil entrar no mundo da política para fazer sua voz ser ouvida. Ela foi candidata a deputada estadual em 2018 e se diz insatisfeita pelo modo como foi tratada pelo seu então partido.
“Eles, os grandões, nos usam como laranja só para conseguir voto para a legenda, não nos dão nenhum suporte e parte disso com certeza é porque somos mulheres, e pior, porque somos do campo”.
Para a professora universitária Bartolina Ramalho Catanante, negra e militante de movimentos que englobam o empoderamento feminino e combate a discriminação racial, existe um caráter machista na forma como os deputados falam sobre as mulheres.
"O que a gente quer discutir, no fundo, são políticas públicas para as mulheres como um todo, o que não tem acontecido na Assembleia de Mato Grosso do Sul.