Ex-funcionária da Adepol descontava vendas sem autorização dos delegados e ainda é suspeita de usar consultório da associação em benefício próprio

Mulher é investigada por aplicar golpe em delegados de polícia
Sede da Associação dos Delegados de Polícia de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande / Foto: Gerson Oliveira/Correio do Estado

Uma ex-funcionária da Associação dos Delegados de Polícia de Mato Grosso do Sul (Adepol-MS) está sendo investigada pela Polícia Civil por aplicar golpes em delegados associados à entidade durante 28 meses, que resultaram em prejuízo financeiro de R$ 83 mil às vítimas.

Segundo inquérito comandado pela Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Defraudações, Falsificações, Falimentares e Fazendários (Dedfaz), a ocorrência foi registrada em setembro do ano passado, quando a Adepol procurou o departamento para denunciar a ex-funcionária M.A.G.V. e uma cúmplice pelos crimes de furto qualificado mediante abuso de confiança, estelionato e lavagem de dinheiro.

De acordo com a versão dada pela associação, os casos que levantaram suspeitas ocorreram entre janeiro de 2020 e maio de 2022, quando foram efetuados “descontos indevidos em contas de associados da Adepol, sob o pretexto de venda de produtos ‘O Boticário’, transferindo os valores subtraídos à conta bancária de G.R.D.S., causando prejuízo total de R$ 18.698,77, posteriormente restituídos aos associados lesados”.

Além do mais, esse não teria sido o único ato ilegal cometido por M.A.G.V., conforme a investigação. Ainda conforme a ocorrência, foi descoberto a utilização fraudulenta do consultório odontológico da Adepol, que teria sido usado para atender familiares e conhecidos da ex-funcionária, o que resultou em prejuízo financeiro avaliado em R$ 65 mil.

Em documento enviado ao delegado-geral da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, Lupérsio Degerone Lúcio, e que consta na juntada do inquérito, a associação apresentou declarações de 13 pessoas que tiveram envolvimento direto ou indireto com a investigada, entre delegados e profissionais que trabalhavam na Adepol.

Inclusive, nestes depoimentos transcritos pela associação, confirmaram-se também as histórias de que M.A.G.V. não seria bem quista por uma grande parte do convívio profissional.

Segundo alguns relatos, a ex-funcionária chegou a insultar outros colegas, de forma intensa e frequente, o que levou a sua demissão por tais atitudes que, de acordo com o documento, poderia tipificar crimes como constrangimento ilegal, injúria, perseguição, injúria racial e intolerância religiosa.

Além dos depoimentos, a Adepol também apresentou 17 cartas de requerimento de restituição assinadas pelos delegados lesados pelo esquema de lançamentos indevidos nas mensalidades para compra de produtos da Boticário encabeçado por M.A.G.V..

O documento ainda expõe os comprovantes de pagamento via Pix que foram feitos por meio da conta jurídica da Adepol para as mãos de G.R.D.S. As transferências em cada um dos anos totalizaram a quantia de R$ 27.355,61, mas R$ 18.698,77 foram contestados e não reconhecidos pelos associados, resultando na restituição dos valores.

Sobre os atendimentos “exclusivos” no consultório odontológico da associação, a Adepol disse que foram identificadas diversas fichas de atendimento sem autorização ou conhecimento da diretoria.

Entre os 13 nomes encontrados, oito levam o sobrenome de M.A.G.V., o que contribui com a ideia repassada inicialmente no registro da ocorrência de que familiares da ex-funcionária eram atendidos no espaço.

No dia 15 de janeiro deste ano, a delegada Ana Luiza Noriler da Silva Carneiro determinou que o inquérito policial fosse enviado ao Poder Judiciário, mais especificamente ao Fórum Cível e Criminal de Campo Grande, o que foi atendido. Até o fechamento desta edição, esta foi a última movimentação sobre o caso.

Caso sejam indiciadas pela Polícia Civil, denunciadas pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), julgadas e condenadas pelos crimes de furto qualificado mediante abuso de confiança, estelionato e lavagem de dinheiro, as suspeitas podem pegar pena de 6 a 23 anos de reclusão, além de aplicação de multa, conforme assegura o Código Penal.
Números

Segundo dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), no ano passado foram registrados 12.071 estelionatos, uma redução de 13,77% em relação aos números de 2024, quando tiveram 13.998 ocorrências – recorde até o momento.

Entre os municípios, Campo Grande liderou com 3.608 casos, seguido por Dourados (1.344), Corumbá (420) e Coxim (256).

Os casos de estelionato tiveram um boom no Estado durante a pandemia da Covid-19, e se mantiveram em alta depois dela. Por exemplo, no início da pandemia, em 2020, Mato Grosso do Sul registrou 7.205 casos e, de 2016 a 2019, variou de 3,6 mil a 5,2 mil casos por ano.