Kings League busca afirmação em meio a oscilações e tenta criar identidade própria.
Em um mundo cada vez mais conectado, uma liga de futebol criada do zero para uma geração acostumada a internet tenta se consolidar enquanto busca construir uma identidade própria. A Kings League retorna nesta segunda-feira com clubes, presidentes e jogadores apostando no crescimento da competição e sonhando com o sucesso do projeto.
O G3X, equipe presidida pelo streamer Gaules, chega à Kings Cup Brazil 2026 cercado de expectativas após conquistar o título do Mundial de Clubes, em agosto. Sem Kelvin Oliveira, o K9, afastado por lesão, o time deposita suas esperanças em Andreas Vaz.
Eleito MVP do torneio mundial, o atacante se consolidou como um dos principais rostos e defensores da modalidade. Andreas começou no futsal e passou pelo futebol de sete antes de abraçar a Kings League em 2024.
"Quando me apresentaram o projeto, tudo ainda era muito incerto. Eu tinha um calendário cheio no futebol de sete e pensava em trocar essa segurança por uma competição de apenas 12 dias. Na época, o Corinthians, onde eu jogava, me pediu uma definição. Estudei mais a fundo a Kings League e enxerguei muito potencial. Mesmo sem existir ainda uma edição no Brasil, acreditava que daria certo. O brasileiro é apaixonado por futebol, e a competição mistura esporte e entretenimento de uma forma muito diferente", disse à Gazeta Esportiva.
"Claro que a questão financeira também pesou. Fui muito transparente com o G3X sobre o que recebia no Corinthians, e eles não só igualaram os valores como ofereceram uma condição melhor. Então não foi uma aposta no escuro. Além disso, enxerguei uma grande oportunidade de crescimento. Se eu estava seguro financeiramente e acreditava no potencial do projeto, não fazia sentido não arriscar", completou.
A primeira edição da Kings League Brasil começou em 29 de março de 2025 e rapidamente ganhou projeção, culminando em uma final disputada no estádio do Palmeiras, com mais de 41 mil pessoas nas arquibancadas.
"Quando a gente foi para o México e chegou à final de um Mundial que valia 1 milhão de dólares, isso trouxe muita atenção. Aí a Kings League chegou ao Brasil e explodiu. Antes eram o Gaules e o Cris Guedes na Fúria, depois vieram mais presidentes muito grandes. O primeiro split teve um boom enorme, com final no Allianz Parque e a Seleção Brasileira sendo campeã do mundo em Milão”, relatou Andreas.
A KINGS LEAGUE CHEGOU PRA FICAR.
@AllianzParque LOTADO com RECORDE na GRANDE FINAL!
#KingsLeagueBrazil https://t.co/rfwgMVZMRz
— Kings League Brazil (@Kings_LeagueBR) May 19, 2025
Entre o hype e a consolidação
Um ano depois, porém, o cenário já não é o mesmo. Embora a competição tenha formado uma base fiel de fãs e continue atraindo grandes nomes da internet, a Kings League vive um momento de oscilação.
“Eu acho que é normal ser um pouco ondulatório. Com o tempo, foi se formando uma bolha. Hoje eu acho difícil alguém começar a acompanhar do nada. Existe uma base de fãs já consolidada e o crescimento acaba sendo mais gradual. A Kings League ainda está apenas no segundo ano no Brasil, então é natural que passe por fases de crescimento e adaptação. Mesmo assim, vejo sinais muito positivos, como a chegada da liga feminina em 2027”, disse o atacante do G3X.
O maior desafio da Kings League está no calendário. Com apenas cinco meses de competições ao longo do ano, os clubes enfrentam dificuldades para manter o interesse do público nos períodos sem jogos.
“Muita gente esfria, para de acompanhar e nem sempre volta. Por isso a Kings League vive um momento de estabilização. Teve um crescimento muito forte no começo, mas agora precisa encontrar formas de preencher melhor o calendário para manter a audiência e continuar crescendo”, destacou Andreas.
"Fica muito mais fácil atrair patrocinadores quando existe uma programação consistente ao longo do ano. Eu acredito que ainda vamos passar por algumas oscilações, mas que, com mais times, mais patrocinadores e mais calendário, a tendência é a liga se estabilizar e continuar crescendo”, acrescentou.
Vivendo do jogo
Mesmo com um calendário enxuto, a maior parte dos jogadores consegue pagar as contas apenas com a renda obtida na Kings League. A modalidade divide os atletas em três grupos: os wildcards, contratados ou convidados diretamente pelos clubes; os draftados, selecionados por meio do processo de draft; e as lendas, ex-jogadores profissionais ou figuras históricas do futebol escolhidas pelas equipes para compor os elencos. No Brasil, a competição reúne dez times, que mesclam atletas dessas diferentes categorias em suas escalações.
Segundo Andreas Vaz, no G3X a maioria dos atletas vive exclusivamente da liga. Ainda assim, há diferenças no tratamento dado aos dois grupos. Os draftados recebem uma ajuda de custo adicional, já que muitos deixam suas cidades para morar em São Paulo durante a competição.
"Hoje, no G3X, a maioria se mantém com a Kings League. Mas existe uma diferença entre os wildcards e os draftados. Como a maioria dos nossos draftados não é de São Paulo, eles vêm morar aqui. O G3X banca essa moradia e ainda oferece um valor extra. Hoje eles vivem só disso, porque saem das suas cidades para morar em São Paulo", afirmou.
“A maioria dos times complementa esse valor por fora. Tem muito jogador draftado que ainda mantém o trabalho dele. Então os times treinam à noite para o cara conseguir trabalhar de manhã e treinar depois. Mas não é a realidade dos wildcards. Os wildcards recebem muito bem. Praticamente todos largaram o primeiro trabalho que tinham. A gente tratava o futebol de sete como uma renda extra. Tinha o trabalho principal e fazia um extra com o futebol sete. Hoje em dia não é mais assim", completou.
Para complementar a renda obtida na Kings League, os clubes também buscam criar oportunidades comerciais para os atletas por meio de ações de marketing e da captação de patrocínios.
"Quando cheguei ao G3X, já contei com o apoio do clube na gestão da imagem e na captação de patrocinadores. Com o crescimento da equipe e da Kings League no Brasil, surgiram parcerias com marcas como a Adidas e outras empresas. Para nós, que não somos influenciadores, atrair patrocinadores ainda é um desafio, mas essa receita extra já faz parte da realidade dos jogadores", afirmou.
A profissionalização da Kings
Paralelamente, a pressão por resultados aumentou, e os jogadores passaram a se dedicar integralmente à Kings League. Andreas revelou que atualmente treina todos os dias para chegar em sua melhor condição física às partidas.
"A Kings League cresceu muito. No primeiro split, havia uma regra em que o jogador tinha como obrigação apenas duas presenças: um dia de jogo e um treino. Só que a competição foi crescendo para os presidentes, a torcida começou a cobrar. Hoje a gente treina todos os dias, tem acompanhamento nutricional, fisioterapeuta, psicólogo, tudo. Acho que dá para dizer que é bem parecido com a rotina de um jogador profissional. Hoje é basicamente isso: 100% voltado para a Kings”, disse.
Futebol ou gincana?
Desde que foi criada, em 2022, pelo ex-zagueiro espanhol Gerard Piqué, a Kings League convive com críticas de parte do público, que frequentemente classifica a modalidade como uma "gincana". A própria liga aborda essa percepção em seu site oficial, onde responde à pergunta "A Kings League é futebol de verdade?". Segundo a organização, trata-se de uma versão do futebol disputada ao vivo, mas com regras inspiradas em jogos e eSports.
No Brasil, o ex-jogador e apresentador Craque Neto já criticou publicamente a competição, questionando o nível técnico dos atletas e defendendo que o torneio não pode ser comparado ao futebol profissional tradicional.
"Acho isso normal. Existe um preconceito de que quem não chegou ao futebol profissional não tem qualidade, mas muita gente não imagina o quão difícil é seguir carreira no Brasil. Aos poucos, essa visão vem mudando. Nomes consagrados do futsal, como Ferrão e Ricardinho, já elogiaram o nível da Kings League. A competição não quer disputar espaço com o futebol tradicional, mas oferecer uma experiência diferente para quem gosta de futebol. Hoje as pessoas entendem isso cada vez mais”, comentou Andreas.
Apoio de craques
Por outro lado, a Kings League atrai a atenção de grandes nomes do futebol. O principal deles é Neymar. O meia-atacante do Santos é presidente da FURIA FC, ao lado do seu amigo Cris Guedes.
O astro já foi alvo de críticas por participar de eventos da competição em momentos importantes para o Santos na temporada. Em 2025, quando tratava uma lesão, ele foi a uma partida da Kings League Brasil e cobrou um "Pênalti do Presidente", gerando grande repercussão.
As polêmicas, porém, pouco afetam os jogadores da modalidade. Pelo contrário: para eles, a presença de nomes como Neymar é vista como algo importante.
"Ajuda muito. O Neymar foi criticado por estar na final da Kings League após um jogo do Santos, mas sua presença teve um impacto enorme para os jogadores. Para muita gente, poder conversar e receber conselhos de um dos maiores ídolos do esporte é a realização de um sonho. Além disso, ter nomes como Neymar e Ronaldinho Gaúcho envolvidos na liga traz visibilidade, patrocinadores e investimentos, algo que acaba ajudando diretamente na carreira e na vida dos atletas”, contou Andreas.
A próxima fase da Kings
Em meio às oscilações da modalidade, Andreas Vaz tenta se consolidar como um dos principais nomes da Kings League, embora mostre receio em adotar o rótulo de "popstar" do esporte. Aos 31 anos, o jogador espera deixar um legado e ajudar a transformar a competição em um celeiro de ídolos para a nova geração.
"Fico muito feliz por ser considerado um nome grande dentro da Kings League, mas muito disso também passa pelo G3X e pelo Gaules. Ele sempre colocou os jogadores à frente do projeto e mudou a vida de muita gente, inclusive a minha. Espero que muitos outros nomes surjam também. Se continuarmos trabalhando com profissionalismo e acreditando na liga, existe espaço para criar cada vez mais ídolos dentro desse esporte", afirmou.
Hoje, se pudesse voltar no tempo, Andreas sabe exatamente qual conselho daria ao garoto que sonhava em viver do futebol. A mensagem também serve para quem vê na Kings League uma oportunidade de carreira.
"Eu diria para acreditar nos próprios sonhos. É a mesma mensagem que passo para as crianças: acreditar, se dedicar, dar sempre o seu melhor e entender que sempre vai ter alguém observando o que você faz. Então, eu diria para continuar trabalhando, buscando evoluir todos os dias e nunca deixar de acreditar”, finalizou, orgulhoso de sua trajetória.