A falta de ação estatal vai além da questão sanitária e inclui também a fome, insegurança, educação e trabalho
A epidemia de chikungunya em Mato Grosso do Sul não começou por acaso na RID (Reserva Indígena de Dourados). Falta de água, lixo sem coleta e postos de saúde precários contribuíram para tornar as aldeias Jaguapiru e Bororó o epicentro do surto no Estado.
No entanto, o retrato do abandono do poder público às aldeias não se restringe às questões sanitárias. Os mais de 13,6 mil habitantes também enfrentam insegurança alimentar, falta de policiamento, alta criminalidade e disputa por vagas nas escolas e postos de emprego para os indígenas das etnias Guarani, Kaiowá e Terena.
Na comemoração dos 124 anos da RID, o Jornal Midiamax produziu reportagens especiais sobre as aldeias Jaguapiru e Bororó. Esta trata dos problemas sociais, que causam epidemias e denunciam o abandono pelo poder público. As outras duas contam a história da comunidade por meio das memórias dos indígenas e de documentos históricos, além das perspectivas pouco otimistas para o futuro da Reserva.
Dourados é o epicentro da doença no Brasil. Neste ano, 14 pessoas morreram de chikungunya na cidade. Dez das vítimas eram pessoas indígenas — inclusive três bebês e uma criança. Com mais de 2,4 mil casos prováveis, quase 18% dos moradores da RID foram infectados. Mato Grosso do Sul já acumula mais de 12,8 mil casos e 24 vidas perdidas para o vírus transmitido pelo mosquito Aedes Aegypti.
A doença, porém, é só a face mais atual e a imagem mais explícita de um desamparo que aparece em diferentes frentes. Segundo o Censo de 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 98,54% dos 13.673 moradores são indígenas. As aldeias possuem 3.527 domicílios ocupados, mas apenas 12,96% têm conexão com rede de esgoto e só 2,01% contam com coleta de lixo.
Epidemia evitável e anunciada
Para o cacique da Aldeia Jaguapiru, o Terena Vilmar Martins Machado da Silva, de 51 anos, o surto de chikungunya não pode ser tratado como surpresa. “A nossa comunidade, Jaguapiru e Bororó, está no completo abandono pelo poder público. Não temos segurança e a saúde está bem precária. O surto poderia ter sido evitado se tivesse pessoas para fazer o controle de endemias”, afirma.
Segundo ele, antes da epidemia, as aldeias não tinham agentes de endemias suficientes para fazer o combate regular ao mosquito. “Hoje conseguimos com a Sesai (Secretaria de Saúde Indígena) a contratação de 50 agentes de endemias, que estão atuando aqui dentro da aldeia, e isso já ajudou bastante”, diz.