O caso lança dúvidas sobre os critérios de contratação adotados pela entidade e expõe fragilidades na governança do chamado Sistema S em Mato Grosso do Sul.

Contratos milionários colocam Fiems sob investigação

Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (Fiems), presidida pelo empresário Sérgio Longen, tornou-se alvo de inquérito civil instaurado pelo Ministério Público Estadual após a celebração de contratos que somam R$ 1.502.944,07 com duas empresas que possuem o mesmo quadro societário. O caso lança dúvidas sobre os critérios de contratação adotados pela entidade e expõe fragilidades na governança do chamado Sistema S em Mato Grosso do Sul.

De acordo com dados disponíveis no Portal da Transparência do sistema Fiems, três contratos foram firmados entre julho de 2022 e outubro de 2023 com empresas sediadas em Campo Grande e pertencentes aos empresários Diego de Souza Alves e Evanildo Albuquerque da Rosa.

A Souza Alves & Cia LTDA – EPP, conhecida comercialmente como Multifer, assinou em julho de 2022 contrato no valor inicial de R$ 514.800,00 para fornecimento de materiais elétricos, posteriormente acrescido por aditivo de R$ 127.178,17, totalizando R$ 641.978,17. Poucos meses depois, em dezembro do mesmo ano, a mesma empresa foi novamente contratada, desta vez por R$ 455.965,90 para fornecimento de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).

Em outubro de 2023, foi a vez da Inovaseg Comercial de Equipamentos e Serviços Ltda, empresa com o mesmo quadro societário da Multifer, firmar contrato de R$ 405 mil para fornecimento de materiais elétricos ao Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), entidade integrante do Sistema Fiems.

Embora a legislação aplicável ao Sistema S não exija os mesmos procedimentos rígidos da administração pública direta, especialistas apontam que os princípios da moralidade, impessoalidade e economicidade devem nortear todas as contratações, sobretudo quando envolvem recursos de natureza parafiscal — oriundos de contribuições compulsórias recolhidas da indústria.

O fato de duas empresas com idêntico quadro societário terem sido beneficiadas com contratos sucessivos e de valores expressivos levanta questionamentos sobre eventual direcionamento, fracionamento de despesas ou ausência de competição efetiva. Também chama atenção a concentração de fornecimentos semelhantes (materiais elétricos) entre empresas vinculadas aos mesmos sócios.

O inquérito foi instaurado no último dia 9 de fevereiro pelo promotor de Justiça Humberto Lapa Ferri. Os detalhes tramitam sob sigilo, mas a investigação deverá apurar se houve irregularidade, favorecimento ou afronta aos princípios que regem a administração de recursos públicos.

Até a publicação desta reportagem, a Fiems não se manifestou oficialmente sobre o caso. As empresas Multifer e Inovaseg também foram procuradas, mas não enviaram posicionamento.

A ausência de esclarecimentos reforça a necessidade de transparência por parte de entidades que administram milhões em recursos vinculados ao setor produtivo. Quando a gestão não se antecipa aos questionamentos, abre espaço para desconfiança — e, pior, compromete a credibilidade institucional.

O espaço segue aberto para manifestação da Fiems e das empresas citadas.